Trajetórias geográficas: ensinar e pesquisar a Amazônia pela voz de suas geógrafas
"A Geografia é um saber que adquirimos antes mesmo de fazermos Geografia. Somos, porque estamos, temos uma ligação de existência com os lugares, portanto isso, esse saber nos fascina". A reflexão da professora titular do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Profª. Drª. Amélia Regina Batista Nogueira, toca na essência de uma ciência que, antes de se consolidar em categorias analíticas na academia, nasce na experiência concreta de habitar o espaço. Egressa do antigo curso de Magistério, a professora Amélia Regina já sabia que seu destino profissional seria a sala de aula antes mesmo de ingressar no ensino superior. O fascínio pelos detalhes de diferentes lugares nasceu ainda no ensino fundamental, instigado pelos debates promovidos por sua professora Suely, de origem japonesa, e pelo hábito constante da leitura de romances, que a permitia viajar imaginariamente pelos cenários onde transcorriam as narrativas. Quando chegou à universidade, optou pela Licenciatura Plena em Geografia e, um ano depois, ingressou paralelamente no curso de Serviço Social, concluindo ambas as graduações. Embora tenha atuado inicialmente nas duas frentes, foi na Geografia que construiu sua trajetória de pós-graduação e docência superior, preservando o diálogo com as demandas sociais herdado de sua formação como assistente social.
Professora Amélia Regina Batista Nogueira
Segundo a professsora, o exercício da docência em Geografia no Brasil, e particularmente no Amazonas, impõe o compromisso inegociável de refletir permanentemente sobre o "mundo da vida". Em suas salas de aula, cruzam-se sujeitos de diferentes identidades étnicas, de classe, de gênero e de distintas origens geográficas, exigindo do professor a capacidade de compreender as múltiplas territorialidades que se constituem a partir dessas vivências. Desarticular o ensino dos fenômenos sociais, culturais e ambientais que atravessam o cotidiano das populações significaria esvaziar a própria razão de ser da ciência geográfica diante da complexidade socioambiental amazônica. É exatamente nesse ponto que a trajetória da docente titular da UFAM encontra a concepção pedagógica defendida por Paulo Freire em sua clássica Carta aos professores, publicada em 1993 na obra Professora sim, tia não. Ao sustentar que a chamada leitura do mundo, gestada na experiência sensorial cotidiana, precede a leitura da palavra e a ela retorna para reinterpretar a realidade com maior rigor crítico, Freire adverte que o ato de ensinar jamais pode dicotomizar os conceitos acadêmicos do saber vivido no cotidiano. Quando o professor recusa o sentido tradicional de pensar o ensino, mantém seu corpo consciente, sensível e aberto às indagações dos estudantes.
Essa relação entre a curiosidade despertada na educação básica e a maturidade da pesquisa acadêmica costura os depoimentos das quatro docentes e pesquisadoras do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEOG/UFAM) entrevistadas neste especial de Dia dos Professores: Profª. Drª. Adorea Rebello da Cunha Albuquerque, Profª. Drª. Jesuete Pacheco Brandão, Profª. Drª. Mírcia Ribeiro Fortes e Profª. Drª. Paola Verri de Santana. Suas memórias revelam como o olhar geográfico foi semeado por professores que ousaram romper com a passividade do ensino tradicional, tanto pelo uso de cartazes geopolíticos e esquemas desenhados a giz na lousa em escolas de Manaus na década de 1970, quanto pela curiosidade cartográfica alimentada no interior do estado, em Parintins, com o auxílio de enciclopédias dominicais e livros antigos guardados pela família até a chegada do Programa de Interiorização da UFAM. Para outras trajetórias, como a da Profª. Drª. Paola Santana, o encontro definitivo com a Geografia científica deu-se na pós-graduação nos anos 1990, impulsionado pela urgência intelectual de formular uma crítica consistente ao discurso ecológico hegemônico. Em todas elas, confirma-se a premissa freiriana de que estudar é um ato revolucionário, movido por quem enxerga o mundo como um quebra-cabeça dinâmico que jamais se fecha por completo e se subverte às lógicas de dominação.
Paulo Freire lembrava aos educadores que a linguagem acadêmica deve buscar a clareza e recusar o fechamento sem cair no simplismo, mantendo-se conectada às condições materiais da sociedade, os depoimentos das professoras apontam que um dos maiores riscos atuais é o isolamento da produção científica. A Profª. Drª. Mírcia Fortes utiliza a metáfora de uma Amazônia cercada por diversas portas de entrada, em que cada qual representa uma especialidade ou linha de investigação separada por paredes, mas ainda carente de um corredor comum que promova o diálogo entre a Geografia Física, a Geografia Humana e outras disciplinas, garantindo que as pesquisas da Universidade Pública retornem às populações locais em vez de circularem apenas entre pares acadêmicos. Esse diálogo exige, como destaca a Profª. Drª. Adorea Albuquerque, incorporar os saberes etnoculturais de povos indígenas e comunidades ribeirinhas na análise das pressões econômicas da mineração, do desmatamento e da expansão urbana. Ao mesmo tempo, requer enfrentar tanto a dispersão de interesses locais, nacionais e internacionais que raramente convergem para a cidadania plena em um território marcado pelas desigualdades, conforme analisa a professora Paola Santana e Jesuete Brandão.
Sustentar uma leitura ampla de mundo passa pela compreensão aos desafios impostos pelas relações de gênero que estruturam a sociedade brasileira e, em particular, campo científico. A professora Amélia Nogueira explicita o peso das assimetrias institucionais pelo recorte de gênero: "Ser mulher professora-pesquisadora no contexto das instituições de ensino e pesquisa ainda é difícil. Estamos sempre no enfrentamento por espaços. Nossas pesquisas e falas ainda são minimizadas e invisibilizadas pelos colegas homens. Mas temos nos colocado mais nesses espaços de disputas. Penso que já poderíamos ter avançado mais, porém, vemos que ainda temos muito a lutar". O diagnóstico da educadora ressoa diretamente nas reflexões de suas colegas de departamento. Embora as mulheres estejam presentes há gerações na construção da Geografia brasileira, como pontua a professora Paola Santana, e já representem a maioria das matrículas, das titulações e da produção científica discente no Departamento de Geografia da UFAM entre 2013 e 2025, segundo levantamento mencionado pela professora Jesuete Brandão, a conquista de reconhecimento equânime nas esferas de decisão permanece uma pauta aberta, conforme sublinha a professora Adorea Albuquerque. Para Mírcia Fortes, as múltiplas experiências que atravessam a vida das mulheres, desde a gestão da casa e da família até o trabalho intelectual, não restringem sua atuação, mas aguçam sua sensibilidade analítica para ler permanências, conflitos e invisibilidades no espaço, tornando a ocupação das salas de aula, dos laboratórios e dos trabalhos de campo um ato político de ruptura contra o silenciamento e a condescendência masculina.
Ao final de sua reflexão, a professora Amélia Nogueira recorda que a ciência geográfica nos desafia a olhar o real por outros ângulos e reafirma a relevância pública da profissão: "Nós, pesquisadores-professores de Geografia, somos importantes, pois somos nós que pensamos o mundo na sua dimensão social, ambiental e cultural. Essas demandas nos desafiam a pensar e intervir para que tenhamos um mundo ambientalmente sustentável e uma sociedade que respeite as diferenças sociais e culturais".
Confira na íntegra os depoimentos concedidos pelas professoras ao doutorando Francisco Igo Said Pinheiro (PPGEOG/UFAM).
Profª. Drª. Adorea Rebello da Cunha Albuquerque (PPGEOG/UFAM)
Na década de 1970, eu estudava no Instituto Christus de Educação, situado na Av. Joaquim Nabuco, hoje Escola Estadual Francisco das Chagas Souza de Albuquerque. Nesse período, conheci a professora Zenaide, uma pessoa apaixonada por Geografia, que ministrava suas aulas com cartazes, ilustrações e discussões sobre questões pertinentes à geopolítica da época. Foi então que comecei a me interessar e a gostar muito dessa disciplina. Quando chegou o momento do vestibular, escolhi a Licenciatura Plena em Geografia. Ao ingressar no curso, fui estudar no antigo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), que funcionava no Seminário São José, fundado em 1848, hoje escola de Ciências Jurídicas da UEA. Na época, o espaço abrigava os cursos da área de Humanidades da Universidade do Amazonas (UA), posteriormente denominada Fundação da Universidade do Amazonas (FUA), antes de receber a nomenclatura Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Foi nesse ambiente que iniciei minha formação acadêmica em Geografia, no início da década de 1980, período marcado por grandes aprendizados e pela consolidação do meu interesse pela ciência geográfica. Nos fundos desse prédio funcionava a sede da AGB, local onde nos reuníamos aos sábados para tratar de assuntos relacionados aos encontros, congressos e às lutas sociais da Geografia. Em 1986, o ICHL mudou-se para o Campus Universitário, hoje denominado Setor Norte da UFAM. Iniciei a faculdade no início da década de 1980 e logo me identifiquei com a área. Posteriormente, segui carreira no magistério e realizei meus estudos de pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob a orientação do professor Antônio Guerra.
No contexto atual, considero que um dos maiores desafios de se fazer Geografia na Amazônia é associar o conhecimento etnocultural ao fazer geográfico. A região amazônica possui uma enorme diversidade de povos, culturas, modos de vida e formas de relação com a natureza, que precisam ser compreendidos e valorizados na produção do conhecimento geográfico. Fazer Geografia na Amazônia exige ir além das análises tradicionais do espaço e incorporar os saberes indígenas e ribeirinhos, reconhecendo que esses grupos possuem conhecimentos fundamentais sobre o território, os rios, a floresta e as dinâmicas ambientais. Outro desafio importante é compreender as transformações socioambientais provocadas pelo avanço econômico sobre a região, como o desmatamento, a mineração e a expansão urbana, sem desconsiderar as identidades culturais e as territorialidades locais. Assim, acredito que o fazer geográfico na Amazônia deve estar comprometido com a cultura e a experiência vivida na compreensão da realidade amazônica.
No cenário científico, acho super importante a presença das mulheres na construção e redefinição dos rumos da ciência na Amazônia. Embora a participação feminina, principalmente dentro da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), ainda seja tímida em alguns espaços acadêmicos e de pesquisa, percebe-se um avanço significativo na ocupação desses lugares e na contribuição das mulheres para a produção do conhecimento geográfico. Defendo que a ciência produzida na Amazônia precisa estar associada à diversidade cultural e às discussões sobre as desigualdades espaciais presentes na região. Nesse contexto, as mulheres desempenham um papel fundamental, pois muitas pesquisadoras têm desenvolvido estudos voltados às questões sociais, culturais, territoriais e ambientais, ampliando os olhares sobre a realidade amazônica. Além disso, vejo que o protagonismo feminino ainda precisa ser fortalecido no ambiente acadêmico. É fundamental que as mulheres sejam respeitadas em suas falas, em suas decisões e em suas contribuições científicas, recebendo o mesmo reconhecimento atribuído aos homens. A presença feminina na universidade, na pesquisa e na formação de novas gerações de geógrafas e geógrafos contribui para uma ciência mais democrática, inclusiva e comprometida com a transformação social. As mulheres contribuem não apenas na pesquisa, como também no ensino, na extensão e na formação de novos profissionais, ajudando a construir uma Geografia mais inclusiva e conectada às demandas da sociedade amazônica.
Às futuras gerações de geógrafos e geógrafas, deixo a mensagem de que não percam a capacidade de compreender o mundo a partir das desigualdades espaciais, pois esse é um dos fundamentos centrais da Geografia. O espaço geográfico não é produzido de forma aleatória; ele resulta das relações sociais, econômicas e políticas que se estabelecem na sociedade. É fundamental entender que a relação entre capital e trabalho está na base da produção do espaço e que, por meio dela, podemos compreender as diferentes formas de organização territorial, as desigualdades e os processos de inclusão e exclusão que marcam a realidade contemporânea. Existem populações que têm acesso aos benefícios produzidos pela sociedade e outras que permanecem à margem desses processos, e a Geografia tem um papel essencial na análise dessas contradições. Por isso, julgo ser importante que os novos pesquisadores e as novas pesquisadoras mantenham um olhar crítico sobre a realidade, buscando compreender como as dinâmicas econômicas e sociais se materializam no território. Não podemos perder de vista que o objeto de estudo da Geografia está diretamente relacionado à produção do espaço geográfico e às relações que o constituem. Mais do que descrever paisagens ou territórios, cabe à Geografia interpretar os processos que produzem as desigualdades espaciais e contribuir para a construção de uma sociedade mais consciente e socialmente justa.
Profª. Drª. Jesuete Pacheco Brandão (PPGEOG-UFAM)
Em toda a vida Escolar o fascínio pela Geografia foi grandioso, pois queria ter o domínio da Cartografia para desvendar o mundo como os naturalistas e os corregedores europeus (classificações acadêmicas conhecidas por mim para entender a Geopolítica, somente a partir da Licenciatura Curta de Estudos Sociais, em um momento tenebroso do Brasil (Ditadura Militar...). Antes disso, tive uma Professora de nome Marieta, na 8ª Série Ginasial e depois no Magistério, onde recebeu o cognome por nós estudantes de “Cassiterita”. Todos(as) da turma ficavam deslumbrados(as) com o vocabulário desconhecido por nós, afinal havia estudado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante as aulas, a cada três palavras faladas durante uma explicação, mencionava a Cassiterita do Território Federal de Rondônia. Aí me bateu a curiosidade e queria saber onde ficava esse local e o que era esse minério. Nas duas bibliotecas do meu município, quer na pública e na da minha Escola, Ginásio Estadual, não havia muitas informações e sempre recorria ao meu Pai que era um grande leitor nas horas que aguardava passageiro embaixo das mangueiras da Praça da Prefeitura de Parintins, e, sempre que sobrava um dinheirinho comprava fascículos de Enciclopédias que acompanhavam os jornais de domingo, nos últimos meses de cada ano saía o Almanaque Abril. Este último trazia muitas informações geográficas, inclusive aspectos físicos e mapas. Esses livretos ajudavam a mim e aos meus irmãos nas respostas de tarefas de aulas, não era muito, mas ajudava. Ele também me apresentou dois livros que guardava em uma maletinha de couro de quando esteve em uma Escola: uma versão de 1967 (Livro de Conhecimentos Gerais. Programa de Admissão. Organizado por: Aroldo de Azevedo; Domingos P. Cegalla; Joaquim Silva; Osvaldo Sangiorgi, publicado pela Cia. Editora Nacional). Me disse que havia comprado de uma pessoa que precisava comprar uma gramática, pois o livro que utilizara na escola passou para as irmãs, pois o conteúdo foi o mesmo; e, o outro uma versão de 1892 (Geographia Primaria. Autor: Dr. Carlos Novaes. 11ª ed. Editado no Brasil pela editora Francisco Alves Cia.). Esses livros me acompanharam a vida estudantil, pois na necessidade de lembrar algum assunto básico me reportava a eles. Daí quando a oportunidade chegou no meu município de conhecer a Geografia mais profundamente, não hesitei um segundo e fiz a inscrição para o vestibular da Universidade Federal do Amazonas, do Programa de Interiorização da UFAM. Ao concluir fiz o Bacharelado em Geografia. Nessa época já era professora de Geografia e História, concursada do Sistema-SEDUC/AM há 15 anos. A partir daí a minha vida ficou definida no meu querer e prazer nos estudos focados na Geografia da Amazônia, me permitindo as outras titulações de Mestrado e Doutorado e o trabalho acadêmico e científico no Departamento de Geografia/IFCHS-UFAM, onde estou em processo de finalização de parte das atividades acadêmicas.
A dependência do fazer Geografia na Amazônia é complexa, pois alguns fatores têm sido entraves: i) os tantos ramos científicos com cursos em EAD ou presencial (Gestão Ambiental, Engenharia Ambiental, Ciências do Ambiente etc.), os quais possuem maiores propriedades de Marketing, com a redução do tempo para titulação, nomes “sedutores”; ii) as dificuldades financeiras das Universidades Públicas que fazem a maior parte da Formação Inicial do Professorado, não têm a sequência temporal, pois levam muito tempo para realizar a Formação Continuada. Outra problemática se refere aos acessos, distâncias e meios de deslocamentos para levar mais formações acadêmicas, e me refiro somente à Amazônia Ocidental (62 municípios), mas quando se trata de toda a Amazônia Legal, a mesma ocorrência deve ser semelhante para dar conta ao total de 772 municípios. Nesse contexto de tempo e dificuldades como poderá ser firmado na Amazônia sobre a importância das Escolas Geográficas e as respectivas Categorias no ensino, pesquisa e extensão? Por acaso, o marco, o norte que diferencia a Geografia dos “velhos” e novos ramos científicos que surgem não são as categorias geográficas, sedutoras à caminhada nesta esplêndida Ciência que é a Geografia?!
Eu diria que o nome Geografia é o diferencial, e pela minha observação, as Mulheres “talvez” sejam aquelas que aguçam seus sentidos desde que se entendem por Gente: observando o espaço mesmo antes de andar; espacializando os brinquedos e brincadeiras, a organização na Casa, na Propriedade, nas tarefas de Casa, no trabalho da Roça, no trabalho de Gabinete e em outros espaços. Isso faz da profissional da Geografia (Licenciatura, Bacharelado e outros níveis), enxergar com o rigor da cientificidade, as especificidades e singularidades do espaço geográfico da Amazônia. Não estou dizendo que só as Mulheres têm essa capacidade, mas estas conseguem ser independentes muito cedo, muitas estão cercadas pela criação matriarcal que acaba lhes servindo para além da Casa-Família. Por exemplo: ainda nesses tempos do Séc. XXI sempre pesa muito o sentido de Irmã mais Velha que já conquistou o mercado de trabalho e a educação escolar, mas ajuda na gestão da sua casa; a Mãe que organiza a vida da família para poder ir ao outro trabalho e ainda estuda, e outras experiências de vida. Ter esse domínio da percepção aguçada, certamente se enquadra no crescimento do Ser Gente-Mulher neste Lugar das Mulheres Geógrafas da Amazônia que independe onde é uma dada pesquisa, além de marcar a presença executa com muito zelo os registros do fenômeno em estudo. Um outro dado sobre as Mulheres da Geografia, se refere aos cursos do Departamento de Geografia. Não realizei estatística de todas as modalidades, mas de 2013 a 2025, tivemos 57% das matrículas no Bacharelado em Geografia por Mulheres. A participação nas formaturas e no cotidiano das disciplinas das duas modalidades de Cursos de Geografia do Departamento de Geografia/UFAM (pioneiro na Amazônia Ocidental) mostra ter titulado mais Mulheres. Outra situação, no número das pesquisas realizadas por tais, quer na Educação Superior quer no stricto sensu tem sido superior.
A Geografia no Brasil é para todas as Gentes que queiram ser Geógrafos(as), como vem acontecendo com os cursos de Bacharelado e de Licenciatura em Geografia. Para além do Brasil, a Geografia tem sido escolha inclusive de Monarcas como: William, Príncipe de Gales, Reino Unido (Graduado e Mestre em Geografia pela Universidade de St. Andrews da Escócia) e o Príncipe Arthur Chatto, sobrinho da Rainha Elizabeth II (Graduado pela Universidade de Edimburgo da Escócia); e Princesas de épocas anteriores como: Maria Leopoldina da Áustria e as Princesas Isabel e Leopoldina do Brasil (receberam uma educação imperial rigorosa conduzida por mestres particulares que incluía a Geografia). Portanto, Geógrafa(o) não esqueça de refletir sempre sobre o nascimento da Geografia como Disciplina Científica que, não foi a partir de uma classe acadêmica favorecida, mas foi no seio dos níveis iniciais da educação escolar (Educação Elementar para filhos de Operários), no Brasil de hoje (Ensino Fundamental 1), onde o professorado mostrou a importância da Geografia para outros níveis escolares superiores. Desde lá, o percurso segue a defesa que deu a base-alicerce da sua oficialização, conforme os registros de 1903 da Associação Britânica citados por Goodson (1990, p. 238): “...Em primeiro lugar, devemos estimular Escolas Universitárias de geografia, onde os geógrafos possam ser formados... Em segundo lugar, devemos persuadir através de quaisquer formas as escolas secundárias a colocar o ensino geográfico da escola inteira nas mãos de um professor geograficamente treinado...” (Tradução de GOODSON, I. F. Tornando-se uma matéria acadêmica: padrões de explicação e evolução. Teoria & Educação, Porto Alegre, v. 1, n. 2, p. 230-254, 1990).
Profª. Drª. Mírcia Ribeiro Fortes (PPGEOG/UFAM)
A Geografia entrou na minha vida, inicialmente, de uma maneira muito simples. No ensino básico, eu gostava da disciplina, principalmente porque gostava de desenhar mapas e fazer colagens. Naquele momento, porém, eu ainda não imaginava que a Geografia faria parte da minha vida profissional e acadêmica. Entre 1977 e 1978, estudei no Instituto de Educação do Amazonas (IEA) e tive um professor de Geografia, o professor Geraldo, que marcou minha relação com a disciplina. Ele não utilizava o livro didático como principal recurso. Fazia esquemas dos conteúdos, escrevia no quadro de giz e, a partir daquelas anotações, explicava os assuntos. Eu ficava surpresa a cada aula, porque aquela forma de ensinar era diferente do que eu estava acostumada. Isso despertava minha curiosidade e me fazia querer entender o assunto e, de certa forma, a própria Geografia que aquele professor apresentava. Ainda assim, a escolha da Geografia como curso superior não aconteceu imediatamente. Antes disso, percorri outros caminhos. Fiz no Segundo Grau (atual Ensino Médio) o curso Técnico em Mecânica e, posteriormente, o Magistério. Inicialmente, cheguei a prestar vestibular para o curso de Mecânica no Instituto de Tecnologia da Amazônia (UTAM). Foi somente depois de concluir o Magistério que fiz a opção pela Geografia. A escolha pelo curso de Geografia esteve muito relacionada à minha maneira de olhar para o mundo. Eu gostava, e continuo gostando, de tentar compreender o que está ao meu redor, de desvendar aquilo que muitas vezes parece estar escondido nas coisas mais comuns. Sempre tive a sensação de que o mundo é um grande quebra-cabeça, mas um quebra-cabeça que nunca se completa inteiramente. Há sempre uma peça que falta, uma nova pergunta, uma possibilidade de descoberta. Quem sabe, seja aí que esteja a minha relação com a ciência geográfica. Para mim, ela não é algo acabado. Assim como a ciência geográfica é dinâmica, o meu pensamento também está em movimento. Hoje posso estar pensando e pesquisando a ilha da Marchantaria, amanhã, posso estar estudando Dokdo, no Mar do Leste/Mar do Japão. Em um momento, estou pensando sobre uma bacia hidrográfica, em outro, sobre geleiras, mesmo vivendo em uma região tropical. Em outro momento, saio da bacia hidrográfica do Puraquequara e viajo até a foz, escrevendo sobre a pororoca do rio Amazonas, e, depois, vou ainda mais longe até a pororoca do rio Qiatang, na China. E, em outro momento, posso estar falando de robótica, de tecnologia e de ensino de geografia. À primeira vista, pode parecer que são caminhos muito diferentes, mas, para mim, existe uma relação entre eles: a curiosidade e a possibilidade de compreender o mundo a partir de diferentes perspectivas. Não vejo isso como uma mudança de direção, mas como parte da própria natureza do pensamento geográfico, que nos possibilita olhar para diferentes lugares, fenômenos, temas e escalas e estabelecer relações entre eles. Também não acredito que seja necessário estar fisicamente em um lugar para querer compreendê-lo ou pesquisá-lo. É claro, o trabalho de campo tem uma importância enorme para a Geografia, mas hoje temos outras possibilidades de acesso ao mundo. Não dependemos somente dos livros ou mapas físicos ou mesmo dos livros digitais. A mídia e as tecnologias digitais ampliaram nossas possibilidades de pesquisa. Podemos observar e analisar paisagens, mapas, imagens de satélite, documentos e diferentes representações do espaço por meio da tela de um computador ou de um celular. De certa forma, foi assim que a Geografia foi entrando na minha vida: primeiro pelos mapas e pelas colagens, depois por uma maneira diferente de aprender com um professor que despertou minha curiosidade e, mais tarde, pela escolha consciente de compreender o mundo a partir do olhar geográfico. E essa descoberta ainda não terminou. Provavelmente nunca termine, porque, para mim, fazer Geografia é justamente continuar perguntando, olhando, relacionando e descobrindo.
Para mim, o principal desafio de fazer Geografia na e da Amazônia, atualmente, não está nas grandes distâncias ou na falta de recursos. Naturalmente, essas questões existem e não podem ser ignoradas, mas penso que há um desafio ainda maior: a dificuldade de diálogo e de interação entre as diferentes áreas do conhecimento e, muitas vezes, entre os próprios geógrafos. Tenho a impressão, com relação às pesquisas, de que a Amazônia possui muitas “portas”, mas essas “portas” estão separadas por paredes. Cada área, cada grupo ou cada pesquisador entra por uma porta e, muitas vezes, permanece dentro dela, olhando a Amazônia a partir da sua própria perspectiva e, em alguns casos, como se aquela perspectiva fosse suficiente para explicar a realidade. O problema é que não temos um “corredor” comum que permita a comunicação entre essas portas. Temos muitas entradas, mas pouco diálogo entre elas. Muitas vezes, tudo diverge e pouco converge. Penso que precisamos superar essa fragmentação. A Amazônia não pode ser compreendida apenas a partir da separação entre Geografia Física e Geografia Humana, uma divisão que, por si só, já evidencia a fragmentação da própria ciência geográfica. A realidade amazônica não se organiza segundo os limites que estabelecemos entre nossas áreas de conhecimento e especialização. Ao contrário, os processos que constituem esse espaço estão profundamente relacionados e exigem um olhar que consiga estabelecer conexões, aproximar diferentes saberes e compreender a Amazônia em sua complexidade. Também sinto falta de olharmos com mais atenção para o passado histórico da construção dos espaços amazônicos. Muitas vezes, analisamos uma paisagem, um território, uma cidade, uma comunidade ou uma determinada dinâmica físico-ambiental sem recuperar os processos históricos que contribuíram para que aquele espaço se constituísse daquela maneira. Nesse sentido, considero fundamental uma aproximação maior, especialmente com a História. O espaço que vemos hoje não surgiu de repente. Ele carrega marcas, escolhas, conflitos, culturas, permanências e transformações que precisam ser compreendidos. E, nesse processo, não podemos esquecer as pessoas que vivem na Amazônia. Existem povos originários, comunidades ribeirinhas, populações tradicionais e tantas outras pessoas que constroem cotidianamente esses espaços. A pesquisa geográfica precisa dialogar com essas populações e também retornar para elas. Não basta produzir conhecimento sobre a Amazônia. Precisamos pensar em como esse conhecimento pode contribuir para enfrentar os desafios socioambientais e econômicos que fazem parte da realidade dessas populações. Às vezes, tenho a sensação de que produzimos pesquisas para nós mesmos, para a academia, para um mundo formado por pesquisadores que leem outros pesquisadores. E isso me incomoda. Somos uma universidade pública. Então, para mim, existe também uma responsabilidade social naquilo que pesquisamos. A pesquisa não deve ficar restrita às paredes da universidade. Ela precisa chegar à sociedade, dialogar com ela e, quando possível, contribuir para transformar ou, pelo menos, compreender melhor os problemas que afetam as pessoas. Por isso, o grande desafio de fazer Geografia na e da Amazônia hoje seja construir esse “corredor” entre as diferentes “portas”. Não precisamos deixar de lado nossas especialidades, mas precisamos encontrar caminhos de diálogo. A Amazônia não é feita de partes isoladas. Ela é um espaço de relações, e nossas pesquisas também precisem aprender a trabalhar mais com essas relações.
A presença das mulheres na ciência e na Geografia que se faz nesta região de água, floresta e cultura, tem uma importância que vai muito além de simplesmente ocupar espaços que antes eram, majoritariamente, masculinos. É, também, de participar da construção da ciência, de questionar caminhos já estabelecidos e de contribuir para redefinir os rumos da produção do conhecimento. Certa vez, vi um vídeo no Instagram que apresentava uma reflexão da artista e escritora Maira Kalman sobre as coisas que as mulheres carregam: o lar, a família, os filhos, as compras, a comida, o trabalho de ser humana, as memórias, as dificuldades, as tristezas, as alegrias e o amor. Aquele vídeo e a mensagem ficaram comigo. A reflexão me fez pensar sobre tudo aquilo que muitas de nós aprendemos, mesmo sem querer, a carregar ao longo da vida, reconhecendo que essas experiências fazem parte das nossas trajetórias, embora não definam todas as mulheres. E penso que existe uma relação interessante disso com as mulheres geógrafas. Nossa maneira de fazer ciência também é atravessada pelas experiências que vivenciamos ao longo da vida. Ser mulher não determina uma forma de fazer ciência. São as experiências que atravessamos que podem ampliar a nossa capacidade de perceber, observar, antever, questionar e interpretar o espaço geográfico. A mulher geógrafa pode olhar para um lugar não apenas pelo que está diante dos seus olhos, mas também pelo que esteve ali antes, pelo que está acontecendo naquele momento e pelo que poderá acontecer depois. Ela pode perceber as permanências, as transformações, as ausências, os conflitos e as relações que muitas vezes não aparecem de imediato. E isso não significa pesquisar apenas como mãe, esposa, tia, avó ou mulher trabalhadora. Somos tudo isso, carregamos essas experiências conosco, e a partir desses papéis fazemos ciência. Significa pesquisar como uma profissional qualificada, que construiu conhecimento, desenvolveu um olhar científico e tem competência para produzir ciência. E isso seja ainda mais importante porque as mulheres precisam lidar com provocações, questionamentos e situações que colocam à prova a nossa capacidade. Em certos momentos, somos levadas a provar que somos capazes de pesquisar, de coordenar, de ocupar espaços de decisão, de produzir conhecimento e de contribuir para a ciência. E é exatamente por isto que ocupar estes espaços tenha um significado de ruptura. Não precisamos pedir licença para produzir ciência e pesquisar qualquer aspecto da Amazônia. Na Amazônia, essa presença é ainda mais importante. As mulheres geógrafas estão nas universidades, nos grupos de pesquisa, na gestão, nas escolas do ensino básico, no trabalho de campo, na produção científica e em outros espaços. A partir destes diferentes lugares, também constroem outras perguntas, outros olhares e outras possibilidades para a Geografia. Acredito que ter mulheres construindo e redefinindo os rumos da ciência geográfica na Amazônia não significa apenas aumentar o número de mulheres. Significa reconhecer que a ciência também é construída por diferentes experiências, trajetórias e formas de olhar os labirintos amazônicos. Nós, mulheres geógrafas, além de carregarmos as coisas do cotidiano familiar, do trabalho e da vida, carregamos as perguntas, os conhecimentos, as experiências e a responsabilidade de abrir caminhos para que outras mulheres possam ocupar esses espaços sem precisar provar que são capazes.
Desta maneira, minha mensagem vai, especialmente, para as futuras gerações de geógrafas: não tenham medo de falar, de pesquisar, de produzir conhecimento e de construir novos conhecimentos. Pesquisem com a mente aberta, mas também com firmeza. Acreditem naquilo que fazem e, principalmente, na capacidade que vocês têm de produzir ciência. Não tenham medo de errar, porque o erro também faz parte da pesquisa, nem tenham medo de ser questionadas. Ser questionada faz parte da ciência. Precisamos aprender a sustentar nossas ideias, rever aquilo que precisa ser revisto e continuar pesquisando quando acreditamos que há algo que precisa ser compreendido. Vivemos em uma sociedade ainda marcada pelo machismo, pela misoginia e pelo etarismo, e essas formas de desigualdade também atravessam o ambiente acadêmico e profissional. Elas podem aparecer no silenciamento (manterrupting), na apropriação de ideias (bropropriating), na explicação condescendente (mansplaining) e no questionamento da competência das mulheres. Por isso, ocupem os espaços. Falem. Pesquisem. Produzam. Questionem. Não diminuam a própria voz para caber em espaços que, também, são de vocês. Não esperem que alguém diga que vocês estão prontas ou que são capazes. Construam sua trajetória, defendam suas ideias e reconheçam o valor do conhecimento que produzem. A trajetória acadêmica pode ser longa e trazer dúvidas, críticas e dificuldades, mas isso faz parte do caminho. Continuem aprendendo, construindo conhecimento e abrindo caminhos. Acredito que uma das maiores contribuições que uma geógrafa possa deixar seja abrir uma porta para que outra mulher possa passar por ela com confiança e autonomia.
Profª. Drª. Paola Verri de Santana (PPGEOG/UFAM)
Paola Verri de Santana na cheia na cidade de Anamã – AM – 11 Jul. 2012.
Os conhecimentos geográficos foram entrando ao longo da própria vida e estudos na escola, mas a Geografia como conhecimento científico entra quando buscava investigar sobre a questão do meio ambiente na tentativa de fazer uma crítica ao discurso ecológico. Isso aconteceu enquanto ingressava no mestrado em Geografia na Universidade de São Paulo na década de 1990.
São muitos desafios dado um espaço de muita pobreza no sentido amplo. Diante de um território muito vasto e povoado de diversas maneiras, a Amazônia tem sido alvo de interesses de pesquisa locais, nacionais e internacionais que dificilmente convergem na construção de uma cidadania desejada.
As mulheres estão presentes na Ciência Geográfica há gerações no Brasil. Nem sempre estamos pesquisando o modo como as mulheres ocupam um lugar no mundo ou na Amazônia, mas apenas se colocando na construção desse conhecimento geográfico sobre o espaço e a sociedade.
Aproveitem o tempo e a vida na universidade para estudar muito sobre o tanto que as gerações anteriores conseguiram alcançar, mantendo a curiosidade científica, a persistência, o espírito crítico.
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