Doutoranda do PPGEOG e professora da rede pública de Manaus vence premiação nacional e agora segue rumo à etapa internacional em Londres

Legenda: #paratodosverem – professora Thaini recebendo a premiação
A fronteira entre a pesquisa acadêmica e a sala de aula da educação básica acaba de ser rompida por uma iniciativa que coloca a Amazônia no centro do debate global sobre inovação pedagógica, etnoconhecimento e mudanças climáticas. Thaini Alves, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGEOG/UFAM) e professora da rede pública municipal de Manaus, conquistou a etapa nacional da 3ª edição do Prêmio Educador Transformador. O reconhecimento leva agora a ciência produzida na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé para a etapa internacional em Londres.

Legenda: #paratodosverem – Estudantes da escola municipal São João do Tupé
O projeto "Observatório da Estiagem", nasceu da necessidade de compreender as dinâmicas climáticas a partir da vivência dos estudantes da Escola Municipal São João do Tupé. O trabalho é fruto do Programa Ciência na Escola (PCE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), e propõe uma alfabetização científica que dialoga com a realidade local.
A pesquisa utiliza sensores de baixo custo e inteligência artificial para monitorar as variações do nível do rio e o microclima da região. A distinção do projeto reside na integração entre o saber científico tradicional e o uso de recursos tecnológicos inovadores para mitigar os impactos da crise climática no cotidiano ribeirinho.

Legenda: #paratodosverem – Coleta de dados realizada pelos estudantes envolvidos no projeto.
Em entrevista concedida ao doutorando Francisco Igo Said, a professora pesquisadora detalhou os feitos e desafios durante a construção do projeto que desencadeou na sua premiação. Thaini Alves revelou a importância de se construir ciência através dos saberes fazeres amazônicos, idealizados e mantidos nas comunidades, popularizando e democratizando o conhecimento científico e amazônico.
Entrevista Completa
1. Fale sobre o Prêmio Educador Transformador e como surgiu o seu interesse em participar.
O Prêmio Educador Transformador é direcionado a professores(as) e gestores(as) de instituições de ensino públicas e privadas que buscam inovar na educação. Eu fiquei sabendo do prêmio quando o Prof. Dr. Jair Maia, do departamento de Biologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) me enviou o edital, ele esteve comigo no Rio Amazonas em 2024 para dar uma oficina aos estudantes ribeirinhos em um outro projeto meu, mantemos contato e ele me mandou o edital. Quando eu li vi que valia a pena submeter o projeto “Observatório da estiagem” que eu estava desenvolvendo já no Rio Negro em 2025 e deu certo.
2. Conte-nos sobre o seu projeto: o que é, onde foi realizado e com quem você o construiu.
O projeto é o “Observatório da estiagem” um projeto de PCE – FAPEAM que desenvolvemos em 2025 na Escola Municipal São João ribeirinha. A escola é uma unidade ribeirinha e indígena localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé, Rio Negro em Manaus. O objetivo central foi monitorar componentes físicos e naturais (temperatura, umidade do ar, precipitação, hidrografia e nível da água de poços) para avaliar a seca do Rio Negro entre julho e dezembro de 2025, transformando dados em ferramentas de adaptação local. A metodologia executada integrou ciência cidadã, educação ambiental e etnociência, promovendo o diálogo entre o conhecimento tradicional dos anciões e dados quantitativos coletados. Os bolsistas foram capacitados em eletrônica básica para a montagem de componentes eletrônicos com sensores ultrassônicos (HC-SR04) e tecnologias sociais, como pluviômetros artesanais, higrômetros de cabelo e réguas de nível, fortalecendo sua identidade e pertencimento ao perceberem que a educação e a ciência geram dignidade e soluções reais para o território amazônico. Os dados coletados foram analisados e difundidos via boletins informativos diários à comunidade, promovendo letramento científico e autonomia tecnológica. Os resultados demonstraram a eficácia do monitoramento participativo na mitigação de riscos, como alertas de queimadas. A excelência técnica culminou em reconhecimento nacional com o 1º lugar no Prêmio Nacional Liga STEAM 2025, 1º Lugar Prêmio Educador Transformador (etapa estadual e nacional), 1º lugar na EXPOCREATI 2025 e na 13ª Feira de Ciências da DDZ Rural, e com ele venci o Prêmio Professor Porvir na categoria de tecnologia. O observatório da estiagem consolidou-se como projeto que fortaleceu o pertencimento e o protagonismo dos jovens pesquisadores das águas e florestas frente aos desafios ambientais contemporâneos. Para mim, a importância do projeto está, principalmente no fato de que, projetos como esse, além de contribuir com a comunidade, possibilita que os alunos aprendam a fazer ciência desde a educação básica, e isso leva eles a continuarem a trilhar o caminho da educação e da ciência, pois mostra que existem outras possibilidades de futuro por esse caminho, e frequentemente os projetos, pesquisas cientificas e estudos na Amazônia são realizados por pessoas de fora, e minha missão enquanto professora ribeirinha na Amazônia tem sido capacitar e colocar na cabecinha deles que eles devem e podem ser os protagonistas de seu próprio território, como agentes ativos na busca por soluções. Atualmente estamos aguardando financiamento para que o monitoramento seja permanente.
3. Qual é a proposta central do projeto no Eixo Inclusão e Sustentabilidade na Educação?
O projeto não apenas aborda a crise climática, mas o faz a partir da democratização do acesso à ciência em territórios historicamente marginalizados. A inclusão, neste contexto, se manifesta na visibilidade e no protagonismo de sujeitos ribeirinhos e indígenas, e ao capacitar estudantes para monitorar o próprio território, o projeto rompe com a lógica da ciência feita por agentes externos que levam os dados embora. Isso promove uma inclusão identitária, em que o aluno se reconhece como produtor de conhecimento. A inclusão ocorre também no campo do conhecimento. Ao integrar o saber dos anciões com dados de sensores ultrassônicos, o currículo escolar passa a validar a cultura local, combatendo o apagamento histórico das populações amazônicas. A montagem de sensores e a eletrônica básica garantem o letramento digital em áreas com baixa infraestrutura, reduzindo o abismo tecnológico entre a educação urbana e a rural. O projeto materializa a sustentabilidade como uma prática de adaptação e mitigação frente aos extremos climáticos da Amazônia. A coleta de dados sobre precipitação e nível dos poços não é apenas um exercício acadêmico, mas uma ferramenta de sobrevivência. O uso de boletins informativos para a comunidade transforma a escola. Diferente de uma abordagem puramente teórica, a sustentabilidade aqui é vivencial. Os alunos compreendem a dinâmica do Rio Negro não como um conceito abstrato, mas como um sistema que impacta diretamente a segurança alimentar e o transporte da comunidade. A capacidade de gerar alertas de queimadas e prever o isolamento geográfico por seca confere autonomia tecnológica à comunidade, permitindo que ela tome decisões baseadas em evidências locais. A sustentabilidade de um território depende da permanência de seus jovens com qualificação técnica e científica. A percepção de que a ciência gera soluções reais fortalece a autoestima coletiva. O reconhecimento nacional (Prêmios Liga STEAM e Educador Transformador), valida para o estudante que sua realidade local tem relevância global.
4. Como educadora e pesquisadora, qual é a importância da premiação para você, para a escola pública, para os estudantes e para a sociedade?
A premiação não representa apenas o reconhecimento de um resultado, mas a validação de um processo pedagógico e científico que funciona e tem propósito. Para uma educadora e pesquisadora inserida no contexto amazônico, esse triunfo reverbera em múltiplas dimensões, consolidando a escola pública como um polo de inovação tecnológica e social. A premiação funciona como um selo de excelência técnica e científica. No âmbito da pesquisa acadêmica e da prática docente, ela proporciona visibilidade à Ciência Local, fortalece a trajetória acadêmica, pois projetos premiados conferem robustez ao currículo, facilitando a interlocução com agências de fomento, além de confirmar que a integração entre tecnologias digitais (IA, sensores) e saberes tradicionais é um caminho viável e eficaz para a educação contemporânea. A vitória em prêmios nacionais como a Liga STEAM e o Educador Transformador altera a percepção social sobre a educação pública, especialmente em unidades ribeirinhas e indígenas. O impacto mais profundo ocorre na subjetividade dos alunos, que deixam de ser espectadores para se tornarem pesquisadores das águas e florestas. Tem ainda o fato de que a premiação sinaliza para a sociedade civil e para o poder público a eficácia de modelos de ciência cidadã. Em suma, a premiação é o reconhecimento de que a educação pública na Amazônia é capaz de produzir respostas globais para desafios locais, colocando o estudante ribeirinho no centro da discussão climática mundial.
5. E quais são as expectativas para representar o Brasil em Londres?
A maior expectativa é inverter o fluxo do conhecimento. Frequentemente, a Amazônia é objeto de estudo de pesquisadores estrangeiros. Ao ocupar esse espaço em Londres, mostramos nossas iniciativas e produções cientificas. É a oportunidade de mostrar que a solução para a crise climática global passa, obrigatoriamente, pela tecnologia social e pela etnociência produzida no território. A expectativa é observar como outros países estão integrando sensores e IA na educação básica e, simultaneamente, apresentar como o uso de tecnologias de baixo custo pode ser replicado em outros contextos de vulnerabilidade climática no mundo. Representar o Brasil em Londres é provar que a Escola Municipal São João, no coração da Reserva do Tupé, pode produzir uma ciência tão necessária quanto qualquer centro de pesquisa europeu.
Sobre a professora pesquisadora
Thaini Maiara Pereira Alves é doutoranda em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com foco de pesquisa em Geografia da Educação na Amazônia e análise de políticas educacionais em Manaus. Possui mestrado em Ensino de Geografia pela Universidade de Brasília (UnB), focado em metodologias para o ensino de componentes físicos e naturais para estudantes ribeirinhos. Atualmente, exerce a função de formadora de professores na Divisão de Desenvolvimento Profissional do Magistério (DDPM) da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED). Possui experiência docente na educação básica, com ênfase em educação para populações ribeirinhas e indígenas, atuando especificamente com o Projeto Itinerante e na investigação de desigualdades territoriais no contexto amazônico. Especialista em tecnologias digitais para a educação e em, Gestão escolar . Experiência na área de Geografia, com ênfase em Educação, Tecnologias Educacionais e Território.
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